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Wednesday, January 28, 2015

Friday, November 30, 2012

(Inverno.#)

.
rascunho muito rápido / Fevereiro 2012
(não tem apetecido desenhar /: )

Tuesday, April 10, 2012

(hoje, enquanto dormiam)



Hoje, enquanto dormias, andei pelos telhados de outra cidade. Falei com leões de asas feitas de pedra e tropecei várias vezes em anjos e gárgulas com mais de duzentos anos (pedi-lhes desculpa, como é evidente). Havia o céu, azul, como num postal, que cheirava a laranjas e a almoço. Miúdas, as pessoas viviam lá em baixo, não se atrevendo a voar como gatos porque a maioria das casas estão em risco de ruir. Mas sulcos, texturas, padrões, a todos vi de lá de cima, deixando-me descansar em cada ponte que as minhas olheiras encontravam, para depois tos mostrar.

A água doce dos canais e lagunas talvez abriguem nereides ou fantasmas. Passeiam-se por entre colunas de madeira e pedra, debaixo de água, certamente à espera que caiam moedas incautas para poderem comprar bilhetes de barco e irem vadiar para outros sítios. Vi-as quando espreitei para os túneis, de cabeça para baixo e de atacadores desapertados, o que provavelmente pouca credibilidade terá.


Arcos, abóbadas, mosaicos, relevos gravados em filigrana, flores penduradas nas varandas (vermelhas, as flores, e roxas), tinta a descascar.

Nas oficinas, vidro, papel e telas a ser trabalhados.

Contei
centenas
de
degraus
até desistir.

De meia em meia hora, um campanário murmurava e as ruas ficavam atentas. (No telhado onde estava, prendia a respiração.)

Numa das vezes em que quase desci, um martelo estava na mão de um homem e desfigurava a estátua de um santo. Perguntei-lhe porque o fazia, bem alto. Mas não sabia, ou não quis dizer. Por isso, apanhei um pedaço de estuque que andava por ali caído e atirei-lho.

Tive de me retirar muito apressadamente.

Monday, June 13, 2011

(roxo :: pequena história por acabar) continuação 3

1ª parte aqui
2ª parte aqui


Estavam flores pálidas na árvore e no chão em frente ao banco de jardim, aos pés de Jules. Descalçara-se. Anoitecia.

O rapaz da cartola não encontrara Dasha e o gato não dormira, vigiando a criança adormecida. A dado momento, Jules separara-se do rapaz da cartola, deixando-o terrivelmente frustrado e preocupado. Mas a jovem perdida desconhecia em que apuros o deixara, desconhecendo também em que sarilhos se iria meter, se a sua memória não lhe regressasse depressa.

Porque alguém a observava com interesse. E quando viu a rapariga descalça levantar-se do banco e abandonar o jardim, parecendo hesitante e algo insegura, os seus dedos desfazendo descuidadamente algumas flores, pagou o café que não chegara a beber para a continuar a seguir de forma discreta.

Na cozinha de Dasha, o esparregado queimara-se, sem ninguém que o vigiasse.
Afinal de contas, o gato ainda não aprendera a desligar o fogão.

Saturday, June 04, 2011

pipocas e pega-monstros [excerto]


Escorregam pela folha, bebendo-me, aquelas horas, as primeiras, em que te conheci pela segunda vez.
Deste-me um pacote de pipocas com sabor a morango e eu dei-te um ‘pega-monstros’. As ruas cheiravam a chuva e aos rostos de pedra eternos dos deuses na sua escuridão, mas nós ainda não as aprendêramos a descrever.
No bolso, em número que muito grande a nós nos parecia, rebuçados comprados no quiosque da praça a um escudo cada. Cinquenta escudos assemelhavam-se-nos a uma pequena fortuna, nesses dias, gasta em pastilhas elásticas e cromos e livros de banda desenhada.
E tínhamos nos lábios os mesmos sabores, morango, limão, laranja e maçã, enquanto jogávamos ao berlinde na terra enlameada. 
[...] 
Éramos, fomos, alquimia e alquimistas, ladrões de nêsperas dois meses por ano. [...]

Friday, December 24, 2010

notebook .#3 scythe

(Outubro 2010 - mais um scan manhoso porque, neste preciso momento, não gosto de nada do que escrevi -_-' )

Saturday, October 23, 2010

(roxo :: pequena história por acabar) continuação

1ª parte aqui

“Onde esta’ Jules?”, perguntou Dasha, impaciente.
Mas o gato não lhe soube responder.


Jules estava, nesse preciso momento, a despedaçar um ramo de rosas púrpura. Há muito que se esquecera de como voltar para casa. Caminhava ao acaso pelas ruas da pequena cidade. A noite caía, trazendo tons violeta e laranja-dourados, ao mesmo tempo que um azul muito escuro era arrastado atrás de si, cobrindo tudo de modo quase imperceptível.
O seu cérebro, confuso, tentava desesperadamente recordar algo, mas esse algo escapava-se-lhe de cada vez que o quase conseguia apanhar.
Levantou-se do banco de jardim onde estivera uns minutos a descansar e encaminhou-se para sítio algum, um rasto de pétalas deixado atrás de si.


“Não vás”, pediu o gato, silencioso e preocupado.
“Tenho de ir, Baguera.” Dasha acariciou as orelhas do gato preto de cauda cortada e vestiu um dos seus casacos preferidos. “Até já”, soprou.
“E se a criança acordar?”, perguntou o pequeno bicho prateado de asas mecânicas. Pousara em cima do ombro de Dasha e esta transferiu-o com cuidado para a ponta dos seus dedos, de modo a olhá-lo de frente.
“Chamas-me. Pedes a alguém que me vá procurar.” Fez uma pausa, pensativa, e acrescentou: “E não a deixas sair desta sala.”


“Dasha… Dasha? Quem e´ Dasha?”, perguntava Jules ao estranho (um estranho que, curiosamente, lhe parecia deveras familiar) que a abordara, indagando pela rapariga. Tinha cabelo negro, era muito alto, de rosto belo, e brincava com uma cartola.
“A Dasha! Preciso falar com ela. Maldita demon…”
O estranho observava Jules, os olhos muito sérios dando lugar a uma expressão alarmada. Ele parou de brincar com a cartola e agarrou-a pelo braço, não sem alguma força, como se a quisesse trazer, somente com o seu toque, de volta `a realidade.
“Jules… Que te aconteceu? Porque não te lembras de Dasha?” A voz traía apreensão.
O nome de Dasha soava a Jules estranho mas próximo ao mesmo tempo.
“E de mim, lembras-te? Sabes quem sou?”


Vinho. Tinto. E três criaturas sob as estrelas, de mãos dadas. Duas raparigas e um rapaz. Um rapaz alto, de cabelo negro e um rosto bonito. Três lábios manchados de carmim. Rindo, falando, chorando, abraçando. Os três tão frágeis e, contudo, os três possuidores de uma força irresistível. Que atrai e repele de modo perigoso.
“Elai. Eu sou o Elai. O contador de histórias. Jules! O que quer que te tenham feito, volta! Combate, raios!”
Ele abraçou-a. Mas ela, mesmo assim, não se conseguiu lembrar.
“Vem comigo”, disse ele, pegando-lhe pelo pulso. E Jules deixou-se levar.


Entretanto, na pequena sala, a criança estava prestes a acordar. As asas mecânicas do estranho bicho prateado batiam muito perto, vigiando o seu sono. O gato subira para cima de uma pequena mesa redonda cheia de livros e dormitava, abrindo um olho de quando em quando, também de vigília `a criança deitada no sofá, após ter inspeccionado e tratado minuciosamente da limpeza das suas patas durante uns bons 15 minutos.

Dasha caminhava em passo rápido através do minúsculo bosque que separava o seu refúgio da pequena cidade. Normalmente, prestaria atenção aos sons que habitavam o bosque, deliciando-se com a dança das folhas nos ramos das árvores, as melodias de pássaros ocultos, o restolhar das folhas secas que pisava, as cores vibrantes e os cheiros a madeira e terra. Porém, desta vez, não havia tempo para tal.
Fez todo o caminho, questionando-se sobre onde Jules poderia estar e o que lhe poderia ter acontecido para nem sequer se ter lembrado de que tinha o esparregado ao lume…

Tuesday, February 09, 2010

(roxo :: pequena história por acabar)



Três velas roxas em três castiçais longos e de ferro negro alumiavam a pequena sala.
Não se ouvia ruído algum senão o do vento a sibilar na janela fechada.
A criança dormia num sofá comprido e de veludo, enroscada sobre si mesma, de respiração inaudível.
O gato preto passou, furtivo, nas sombras. Velava-a, inquieto.
Era Inverno e fazia mesmo muito frio lá fora. Mas, nem o gato, nem a criança, o sentiam.
Já estavam acostumados.
Uma pequena criatura, estranha e prateada, bateu as minúsculas asas mecânicas e voou, suave e silenciosa, até perto do rosto da criança adormecida.
- Criança-flor, chamou. Acorda, por favor. Sim?
Havia dias que a criança estava a dormir, o que era deveras preocupante. No último dia em que saíra de casa, pedira para ir sozinha. Demorara horas. Quando voltou, parecia exausta, como se tivesse caminhado através de muitos continentes. Sentara-se no sofá comprido e de veludo e adormecera.
Desde então, não mais acordara.

Flores gigantescas, de cores algo pálidas e de formas algo estranhas e sinuosas, habitam este mundo, não vês? E anjos caminham, de pés descalços, por entre pedras aguçadas e por entre estilhaços de gelo que exalam vapores sem se magoarem.

Dasha entrou na sala. O gato preto esgueirou-se e foi ter com ela, segredando-lhe imobilidades.

(...)

2ª parte aqui

:: arte aconselhada para esta semana: . Blindside - 'Ask Me Now' | 'A História Interminável', de Michael Ende