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Monday, June 13, 2011

(roxo :: pequena história por acabar) continuação 3

1ª parte aqui
2ª parte aqui


Estavam flores pálidas na árvore e no chão em frente ao banco de jardim, aos pés de Jules. Descalçara-se. Anoitecia.

O rapaz da cartola não encontrara Dasha e o gato não dormira, vigiando a criança adormecida. A dado momento, Jules separara-se do rapaz da cartola, deixando-o terrivelmente frustrado e preocupado. Mas a jovem perdida desconhecia em que apuros o deixara, desconhecendo também em que sarilhos se iria meter, se a sua memória não lhe regressasse depressa.

Porque alguém a observava com interesse. E quando viu a rapariga descalça levantar-se do banco e abandonar o jardim, parecendo hesitante e algo insegura, os seus dedos desfazendo descuidadamente algumas flores, pagou o café que não chegara a beber para a continuar a seguir de forma discreta.

Na cozinha de Dasha, o esparregado queimara-se, sem ninguém que o vigiasse.
Afinal de contas, o gato ainda não aprendera a desligar o fogão.

Monday, January 31, 2011

30.01.2011 (surreal)

Ela tinha a banheira cheia de água, barcos de papel flutuando.
Via desenhos na espuma e o robot disfarçado de torneira.

Uma noite, pediu ao rapaz pássaros de papel. Na noite seguinte, quando chegou a casa, descobriu os pássaros suspensos por fios finos de linha branca, colados por todo o tecto.
Pequenas velas acesas espalhadas por toda a casa.
E um rapaz feito de papel de jornal sentado no sofá.

Friday, December 31, 2010

a rapariga das unhas vermelhas, parte I (comentários/críticas/sugestões sumamente APRECIADOS)

(rascunho )

Todos os dias, depois de chegar do trabalho, a rapariga das unhas vermelhas descalçava-se e punha-se à janela, a sonhar.
Tinha cabelo castanho-claro, pelos ombros, e pele branca e macia. Mas as suas unhas estavam pintadas de vermelho, e de um vermelho bem vivo e bem brilhante – daqueles tons de vermelho que lembram a cor das cerejas maduras e das maçãs dos contos de fada e de rebuçados de morango perdidos algures no tempo.


A rapariga das unhas vermelhas morava num primeiro andar com direito a uma minúscula e preciosa varanda. Aproveitando o passar dos anos, uma trepadeira escalara o seu caminho até à varanda, entrelaçando-se sorrateiramente pelos ferros gastos pela chuva, acabando por criar uma espécie de moldura natural que muito atraía as borboletas, os pássaros e outras pequenas criaturas nocturnas.
No Verão, a rapariga de unhas cor de bagos de romã conseguia até apanhar o perfume da dama-da-noite que uma vizinha tinha no seu quintal; no Outono, gostava de ver as folhas secas que costumavam descer, por vezes, leve e subtilmente, outras, meio entontecidas pelo vento, da sua varanda; e no Inverno, por breves instantes, abria as portadas para apanhar o cheiro a chuva que salpicava toda a cidade e respirar.


Todos os dias, depois de chegar do trabalho, a rapariga das unhas vermelhas punha-se à janela, a sonhar (por vezes, até sorria um pouco), e a noite fechava-se sobre si.
De que seriam os seus sonhos feitos, até hoje ninguém sabe, só se lhe poderiam adivinhar. Mas seriam sonhos entretecidos pelas mãos da saudade, com certeza.


[continua]

Saturday, November 13, 2010

http://chocolatesinquietos.blogspot.com/

um Projecto com Juli <3
(este post é um 3-em-1: desenho + link de projecto novo + escrita :D )

Wednesday, November 10, 2010

a caixa de música

Ele tinha uma caixa de música, daquelas antigas, das que aparecem em histórias.
E, todas as noites, ele ia para perto da única janela que tinha…

Não, não a única janela que tinha.

… Ele ia para perto da única janela por onde a luz de prata da lua se atrevia a entrar às escondidas, e dava corda ao pequeno mecanismo.

E, todas as noites, uma bailarina de asas negras dançava na sua mente, a pele dela tão branca como alabastro e os olhos tão verdes quanto folhas tecidas a partir de esmeraldas, e o cabelo liso, cor de ébano.

E tudo ficava silêncio, quietude, senão a música. As sombras moviam-se mais devagar dentro do quarto. Os livros já não queriam ser lidos. E até os relógios da condenação hesitavam na sua marcha de heresia. Para escutar, ler, a história que ele trazia dentro de si. E a história dele…

A história dele tinha tapetes imensos de neve / era atapetada por mantos imensos de neve beijados por pegadas de seres desconhecidos e castelos sombrios, majestosos, cheios de mistérios e de passagens secretas, depositados em encostas e florestas cobertas dessa mesma neve.

E a história dele tinha frio mas o cheiro a pele aquecida pelo sol e pela terra era o seu.

E lobos de grandes olhos castanhos e tristes vadiavam, na sua história, em liberdade, com vozes em ecos de solidão.

E sereias esquecidas velavam, doces, o sono dos adormecidos, de lábios pálidos e garras compridas no lugar das unhas, para arranhar a alma de quem o merecesse.

E a estátua, as estátuas, habitavam também a frialdade da sua história. Estátuas de formas humanas e de gestos suspensos, algumas caídas em abismos, por distracção ou por desgraça, e cidades inteiras repletas delas.
Algumas até asas tinham. Outras, as haviam possuído, outrora, cacos e ruínas agora, desfeitas e estaladas e tolhidas e quebradas, inertes e descuidadamente espalhadas pelo chão.

E na história dele, diz-se, estrelas sorriam e faziam caretas, mas somente quando lhes apetecia ou quando se sentiam mesmo muito ensonadas.

E a bailarina, de olhos verdes como esmeraldas e pele branca de alabastro e cabelos de ébano, dançando ao som da pequena caixa de música, não tocava no chão, como um fantasma, apesar de já ter ouvido aquela história centenas de vezes.

Assim eram as noites, feitas de saudade e de frio e de lábios negros por beijar.

Até que, um dia, diz-se, (da sua mente) ele se esqueceu de voltar.

Repousa, jaz, diz-se, também ele, numa dessas cidades, tão suas, de criaturas petrificadas, suspensas.

E a bailarina não mais habita na sua memória mas, sim, num qualquer canto do seu esquecido e velho coração.
Para sempre.

Ao som de uma melodia de caixa beijada por luares de prata e de memórias faminta.

Saturday, October 23, 2010

(roxo :: pequena história por acabar) continuação

1ª parte aqui

“Onde esta’ Jules?”, perguntou Dasha, impaciente.
Mas o gato não lhe soube responder.


Jules estava, nesse preciso momento, a despedaçar um ramo de rosas púrpura. Há muito que se esquecera de como voltar para casa. Caminhava ao acaso pelas ruas da pequena cidade. A noite caía, trazendo tons violeta e laranja-dourados, ao mesmo tempo que um azul muito escuro era arrastado atrás de si, cobrindo tudo de modo quase imperceptível.
O seu cérebro, confuso, tentava desesperadamente recordar algo, mas esse algo escapava-se-lhe de cada vez que o quase conseguia apanhar.
Levantou-se do banco de jardim onde estivera uns minutos a descansar e encaminhou-se para sítio algum, um rasto de pétalas deixado atrás de si.


“Não vás”, pediu o gato, silencioso e preocupado.
“Tenho de ir, Baguera.” Dasha acariciou as orelhas do gato preto de cauda cortada e vestiu um dos seus casacos preferidos. “Até já”, soprou.
“E se a criança acordar?”, perguntou o pequeno bicho prateado de asas mecânicas. Pousara em cima do ombro de Dasha e esta transferiu-o com cuidado para a ponta dos seus dedos, de modo a olhá-lo de frente.
“Chamas-me. Pedes a alguém que me vá procurar.” Fez uma pausa, pensativa, e acrescentou: “E não a deixas sair desta sala.”


“Dasha… Dasha? Quem e´ Dasha?”, perguntava Jules ao estranho (um estranho que, curiosamente, lhe parecia deveras familiar) que a abordara, indagando pela rapariga. Tinha cabelo negro, era muito alto, de rosto belo, e brincava com uma cartola.
“A Dasha! Preciso falar com ela. Maldita demon…”
O estranho observava Jules, os olhos muito sérios dando lugar a uma expressão alarmada. Ele parou de brincar com a cartola e agarrou-a pelo braço, não sem alguma força, como se a quisesse trazer, somente com o seu toque, de volta `a realidade.
“Jules… Que te aconteceu? Porque não te lembras de Dasha?” A voz traía apreensão.
O nome de Dasha soava a Jules estranho mas próximo ao mesmo tempo.
“E de mim, lembras-te? Sabes quem sou?”


Vinho. Tinto. E três criaturas sob as estrelas, de mãos dadas. Duas raparigas e um rapaz. Um rapaz alto, de cabelo negro e um rosto bonito. Três lábios manchados de carmim. Rindo, falando, chorando, abraçando. Os três tão frágeis e, contudo, os três possuidores de uma força irresistível. Que atrai e repele de modo perigoso.
“Elai. Eu sou o Elai. O contador de histórias. Jules! O que quer que te tenham feito, volta! Combate, raios!”
Ele abraçou-a. Mas ela, mesmo assim, não se conseguiu lembrar.
“Vem comigo”, disse ele, pegando-lhe pelo pulso. E Jules deixou-se levar.


Entretanto, na pequena sala, a criança estava prestes a acordar. As asas mecânicas do estranho bicho prateado batiam muito perto, vigiando o seu sono. O gato subira para cima de uma pequena mesa redonda cheia de livros e dormitava, abrindo um olho de quando em quando, também de vigília `a criança deitada no sofá, após ter inspeccionado e tratado minuciosamente da limpeza das suas patas durante uns bons 15 minutos.

Dasha caminhava em passo rápido através do minúsculo bosque que separava o seu refúgio da pequena cidade. Normalmente, prestaria atenção aos sons que habitavam o bosque, deliciando-se com a dança das folhas nos ramos das árvores, as melodias de pássaros ocultos, o restolhar das folhas secas que pisava, as cores vibrantes e os cheiros a madeira e terra. Porém, desta vez, não havia tempo para tal.
Fez todo o caminho, questionando-se sobre onde Jules poderia estar e o que lhe poderia ter acontecido para nem sequer se ter lembrado de que tinha o esparregado ao lume…

Tuesday, October 19, 2010

aquele cão preto


Naquela praça antiga, havia uma árvore de tronco negro cor de fuligem em noite escura. A sua textura era macia, e um assombro para alguém que a tocasse.


Quer de noite quer de dia, as sombras nela habitavam, por vezes de olhos vermelhos. Das pedras da calçada emergiam as raízes, também essas de tom obscuro, que serpenteavam, despenteadas, em qualquer direcção que lhes apetecesse, levantando o chão.


Aquela árvore, dizia-se, transformava-se num enorme cão preto em noites de lua nova; espreguiçando-se, alongava-se pelas paredes e pelos becos mais esconsos e sombrios, fazendo com que os habitantes daquele lugar se esquecessem do que iam fazer à rua, momentos antes, em quase estranho encantamento.


Naquelas noites, o cão negro vadiava, liberto.

Mas não havia qualquer motivo para se sentir receio.


Era a árvore, desentorpecendo as patas.

Tuesday, February 09, 2010

(roxo :: pequena história por acabar)



Três velas roxas em três castiçais longos e de ferro negro alumiavam a pequena sala.
Não se ouvia ruído algum senão o do vento a sibilar na janela fechada.
A criança dormia num sofá comprido e de veludo, enroscada sobre si mesma, de respiração inaudível.
O gato preto passou, furtivo, nas sombras. Velava-a, inquieto.
Era Inverno e fazia mesmo muito frio lá fora. Mas, nem o gato, nem a criança, o sentiam.
Já estavam acostumados.
Uma pequena criatura, estranha e prateada, bateu as minúsculas asas mecânicas e voou, suave e silenciosa, até perto do rosto da criança adormecida.
- Criança-flor, chamou. Acorda, por favor. Sim?
Havia dias que a criança estava a dormir, o que era deveras preocupante. No último dia em que saíra de casa, pedira para ir sozinha. Demorara horas. Quando voltou, parecia exausta, como se tivesse caminhado através de muitos continentes. Sentara-se no sofá comprido e de veludo e adormecera.
Desde então, não mais acordara.

Flores gigantescas, de cores algo pálidas e de formas algo estranhas e sinuosas, habitam este mundo, não vês? E anjos caminham, de pés descalços, por entre pedras aguçadas e por entre estilhaços de gelo que exalam vapores sem se magoarem.

Dasha entrou na sala. O gato preto esgueirou-se e foi ter com ela, segredando-lhe imobilidades.

(...)

2ª parte aqui

:: arte aconselhada para esta semana: . Blindside - 'Ask Me Now' | 'A História Interminável', de Michael Ende

Sunday, January 03, 2010

o anjo que te envenena



O anjo disse, de pés descalços:
− Abraça-a, abraça-a muito. Faz dela teu veneno.
E eu disse:
− Não posso, porque o veneno é doce, mas mortal. E tem a sabor a chocolate, sabias?
E o anjo disse, mais uma vez, tentador:
− Mas prova, só um bocadinho… Que mal te fará?
Ao que eu respondi:
− Não, porque é muito; é muito chocolate, e não pode ser, não posso, não consigo… Não há sangue que aguente tanto e tão doce.
E o anjo disse, ainda de pés descalços, depois de descer do muro onde estava sentado:
− És tola. És tola porque não queres sentir.
Colheu uma flor pequenina e colocou-ma no cabelo. E continuou:
− É veneno, sim. Mas, e se for daquele que faz bem?

Envenenas o anjo?, perguntaram.
Não. O anjo é que me envenena, retorqui.

Envenena o anjo, disseram-me então. O anjo que te envenena é um anjo caído.
Não importa. É o meu anjo.

(São os meus anjos.)

Saturday, November 14, 2009

Harle (um reminder)


A pequena Harle. De uma história ainda inacabada mas já querida.
O desenho tem uns 2 anos.




"… Harlequin. Que, de tanto chorar, ficara com dois rastos marcados nas faces. Bem os tentara apagar, no dia em que os notara. Vira-se fugazmente num espelho pendurado numa tenda de um mercador ambulante e parara, esfregando a cara com força com as suas mãos sujas. Usou depois um pouco de saliva. Verificando que não queriam sair, raspara furiosamente com a manga da blusa. E nada. As manchas nem sequer ficado atenuadas tinham.

As suas marcas… As “Lágrimas Que Nunca Secam”.

Passou largos meses, após o enterro da mãe (numa vala comum), nas ruas encardidas, de sombra em sombra, a recolher bocados sujos de comida do chão e a competir com os gatos e cães que, de tão magros que estavam e de tanta fome que tinham, já nada de dócil possuíam.

Foi numa dessas escaramuças que encontrou Heleane. Ou que Heleane a encontrou a si. " (...)